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Este blog é uma forma de partilhar convosco livros que já li, que estou lendo, e/ou que gostaria de ler. Postarei poemas e tudo que estiver relacionado com escrita. É dedicado ao prazer da literatura.
Queres Casar Comigo Todos Os Dias?
de Pedro Chagas Freitas
Edição/reimpressão:2015
Páginas: 320
Editor: Marcador
ISBN: 9789897541315
Sinopse
Emocionante, sensual e doce, um romance a duas vozes tremendamente intenso - capaz de fazer o leitor perceber, profundamente, qual é afinal o poder do amor. Estarão todos à altura de o sentir?
«Ela chegou, pousou a mala.
Ele, no sofá, olhou-a.
Sorriram.
Ela aproximou-se dele. Passou-lhe a mão pelo rosto.
Sorriram.
Ele abriu os braços, aconchegou-a como se aconchega a vida.
E viveram.»
http://www.wook.pt/ficha/queres-casar-comigo-todos-os-dias-/a/id/16523599
http://www.pedrochagasfreitas.com/livros/queres-casar-comigo-todos-os-dias-barbara/
Para não variar comprei o livro pelo titulo "Queres Casar Comigo Todos os Dias?" ![]()
E só quando o comecei a ler, pela parte da "Bárbara" percebi que o livro tinha dois lados distintos da história ![]()
Por vezes consigo mesmo ser muito taralhoca ![]()
Gostei da forma de escrita do autor, vou sem dúvida ler, também, o "Prometo Falhar"
Excertos - "Queres Casar Comigo Todos os Dias?"
<<"Queres casar comigo todos os dias?" - há papéis a mais a separar as pessoas, é bom que haja alguns a uni-las, as palavras são perigosas e é por isso que somos viciados nelas, todos os dias, sem excepção, nos pedimos em casamento e nos beijamos como marido e mulher.
hoje é a sério, ou se calhar hoje é que é a brincar, certo é que há alguém que nos fará legalmente esposa e esposo,
pode não servir para nada mas faz-nos felizes, conheces algo mais importante do que isso?,
eu não.>>
<<É o amor o último limite.
Na cama onde só estava um, era a multidão silenciosa de dois que se fazia ouvir. Ela acreditava que ele voltaria. Ele acreditava que ela voltaria. Mas nem ele nem ela perceberam que só se volta do que um dia se deixou. Ficaram os dois à espera do regresso. Ela pensava que ele tinha ido e não voltara. Ele pensava que ela tinha ido e não voltara. E estavam os dois no mesmo espaço partilhado, no mesmo local de onde nunca haviam tido a coragem de partir. Ele pensava: sinto a tua distância como sinto um osso. Ela pensava: amo esta porta porque é por ela que vais entrar. E a porta abriu.>>
<<o amor sabe ao começo das férias grandes, o calor a aparecer e possibilidades infinitas à frente, o dia acaba quando adormecemos,
mas quando adormecemos adormecemos juntos, e então não acaba nada.>>
<<demorei muitos meses a descobrir que tudo o que não fosses tu seria perda de tempo, acontece assim amiúde, é necessário perceber o que não é para identificar o que tem de ser,
tínhamos de ser mas não ali, sei que choraste quando a porta do carro bateu, as tuas costas e eu a ver-te caminhar, o teu corpo a ir para longe de mim, tu a limpares as lágrimas quando entraste na estação, eu cá fora a tentar perceber o que fazer à minha vida para te instalar nela,
a fraqueza ia adiar o amor, mas não acabá-lo, amar é também derrotar a cobardia.>>
<<É o amor a gramática feliz.
Tocar é a linguagem infinita. Ela tocava-o para se chegar até si. Sabia que não havia fronteiras entre a pele e a palavra. Pensava: quando te coço nas costas sinto os teus dedos nas minhas. Ele andava com ela para poder voar. Inventara o verbo total, o verbo inteiro que sempre procurara. Chamava-lhe amer, de viver por dentro do amor. Ela sorria, passava-lhe a mão pela pele e sentia-se afagada. Pensava: viver é o analfabetismo por criar. E escrevia.>>
<<Mexeste-te mais um pouco agora, não sei em que ponto a manhã está, cheira a qualquer coisa de eterno aqui, cheira sempre, procuraste com a cabeça adormecida a minha mão e pousaste-a nela, desde que a depus no teu rosto que a senti em casa, há um rosto para cada mão, não tenho dúvidas, o teu confunde-se com a minha, é uma condenação feliz...>>
<<passava grande parte dos filmes que víamos juntos a pensar na melhor maneira de o beijo de despedida daí a uma ou duas horas demorar mais, nem que fosse mais um segundinho, uma vez demorei-me mais para te dizer uma piada ao ouvido, e ali fiquei, aqueles segundos enquanto dizia uma piada que não tinha piada nenhuma, a sentir a tua pele contra a minha, outra vez engendrei uma estratégia que fez com que ao dar-te o beijo de despedida me risse ligeiramente, e enquanto me ria os meus lábios continuavam na tua cara, bem colados, tudo servia para te estender mais tempo pela minha presença, comecei cada dia a sair mais tarde de nós, antes das quatro da manhã não te deixava ficar,
doía tanto o momento da despedida do carro também, que asfixia absurda a de te ver ao volante de outro carro escolheres outro caminho que não o meu, eu a ir para um lado, tu para o outro, que sentido poderia aquilo fazer afinal, queríamos os dois o mesmo destino mas faltava-nos a coragem para abrir o mapa, ou pelo contrário para o rasgar, para o fazer em pedaços e ir pela vista, pelo toque, entre nós terá havido, nesses dias, contenção a mais, recato a mais, respeito a mais, fomos certinhos demais, raios nos partam,
mas felizmente durou pouco, e compensámos mais tarde, ainda estamos a compensar,
queres acordar para continuarmos a fazê-lo, por favor?>>
<<"Queres passar pelos dias agarrada a mim", tu quiseste, era o dia da implantação da anarquia em nós, o dia da celebração do fim da liberdade, o vinte e cinco de Abril ao contrário, nunca mais seríamos livres e ai de mim se preferisse a liberdade ao que és em mim, estar longe de ti é uma forma de masoquismo, a maior delas, até,
éramos enfim namorados a sério, daqueles que toda a gente sabe que vão beijar-se e abraçar-se e outras coisas mais que não vou enumerar agora para não me apetecer outra vez acordar-te para adormecermos juntos e cansados como deve ser,
há uma ligação inapagável entre amar bem e cansar bem, nunca se ama bem quando os corpos ainda não estão cansados, porque depois de o corpo descansar levanta-se a outra parte do que liga as pessoas, o que resta do corpo dá um prazer desgraçado, sentir os minutos a passar com o prazer lá atrás, ficar a ouvir o que a tentação não deixou ouvir antes...>>
Ela:
<<Quando sorris nem sei de que terra sou mas só quero ser da mesma terra que tu.
Cumprimentámo-nos como bons amigos que não eramos. Queríamos acreditar que era isso que seríamos. Que era isso que teríamos de ser. (...)>>
<<Havia centenas de muros entre nós e mesmo assim conseguíamos ver-nos limpidamente.
No final da tarde quiseste esticar o dia. Esticar a esperança em mim. Quiseste ir ao cinema e eu só queria festejar e não podia. Mantive-me serena. Avisei os meus pais e ali ficámos. Pela primeira vez íamos viver o que dois namorados vivem. Dizíamos que estávamos apenas a viver o que dois amigos vivem. Ingénuos. Quem conseguíamos enganar? Havia um desejo incontrolável em cada um de nós. Era inconfessável o que nos unia, temos de confessar.
A vida vale a pena sobretudo pelo que é inconfessável, temos de confessar.
O que veio depois foi o que tinha de vir. Porque era o que já lá estava e nem precisou afinal de vir.
O amor nunca chega porque sempre lá esteve.
Sempre estiveste em mim. Ainda estás. És o meu pecado favorito. A minha melhor maneira de errar.
A grande vantagem de falhar é obrigar a repetir.
Amas-me até que não haja erro?>>
<<Hoje que vou ser oficialmente tua é o dia em que mais me sinto minha.
Temos um amor que deu folhas. Um amor genial. Um amor criador. Um amor artista, que soube resistir a coisas tão pequenas e assim se fez grande.
O amor é o que resiste às pequenas coisas todos os dias o querem impedir de crescer.
Qualquer casal resiste à morte, o difícil é resistir à vida. >>
Excertos - "Bárbara"
<<a ambição dói antes do osso,
na recatada região da felicidade absoluta, existe a possibilidade de te abraçar, e mais nada.
devia ser possível comprar-te em prestações, é isso o que todos os dias tento fazer,
haja um beijo disponível em mim e será teu,
se quiseres viver chama-me e eu vou,
sou tão feliz, sabes?
e se não sabes eu ensino-te passo a passo,
começa com um abraço,
anda,
e acaba com uma lágrima e o sono,
quando adormeço acredito na vida eterna,
e quando acordo e te olho confirmo-o,
de que deus vieste tu?>>
<<A sensação de que o tempo pára como medição perfeita do teu grau de satisfação, do teu grau de vida.
Se parasses agora, agora mesmo, o tempo para sempre: seria feliz para sempre?
É esse o teste, a toda a hora, a todos os minutos, que tens de fazer: se o tempo parasse agora para sempre, neste exacto momento em que fazes o que neste exacto momento estás a fazer, serias feliz para sempre? Eu, neste momento seria. Escrevo, sol no céu e quem amo ao lado. Eis o máximos que me posso pedir.>>
<<nunca se dá a devida importânica ao acidente,
quase tudo o que interessa no mundo aconteceu por acidente,
ou por amor, o que é a mesma coisa e tu sabes,
deixaste cair um papel e eu apanhei-o,
obrigada,
podia até continuar a respirar mas preferi parar só para te sentir melhor, o momento em que a nossa vida muda merece uma pausa de tudo, até da própria vida, morrer uns segundos para começar de novo,
no dia seguinte aconteceu um acidente outra vez, foi planeado ao pormenor por mim mas não deixou de ser um acidente,
se há lago que não podemos ser no amor é picuinhas,
foi um acidente e ponto final,
o papel caído, tu tão rápida a apanhá-lo,
o amor pode cumprir-se pela velocidade com que apanhas um papel do chão, não é poético mas é tão bonito,
e quando percebeste o que eu tinha escrito na folha,
tomas um café comigo para te agradecer?,
sorriste, ou riste mesmo,
e ainda nem sabias que eu não tomo café, nunca tomei,
o que aconteceu depois não vale a pena contar,
ok, eu conto, abraçámo-nos ao fim de dois ou três minutos, e não precisámos de mais quatro ou cinco para que eu soubesse como se despertava o botão da tua camisa,
o amor pode cumprir-se pela destreza com que desapertas o botão de uma camisa, não é poético mas é tão bonito,
acontecemos por acidente e de propósito, por mais que toda a gente diga que não é possível,
mas nós também não somos e ainda aqui estamos,
e por acidente eu amo-te,
e tu a mim,
que desgraça e que felicidade,
ele há acasos interessantes, não há?>>