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Este blog é uma forma de partilhar convosco livros que já li, que estou lendo, e/ou que gostaria de ler. Postarei poemas e tudo que estiver relacionado com escrita. É dedicado ao prazer da literatura.
Porque eu fazia do amor um cálculo matemático errado: pensava que, somando as compreensões, eu amava. Não sabia que, somando as incompreensões, é que se ama verdadeiramente. Porque eu, só por ter tido carinho, pensei que amar é fácil. É porque eu não quis o amor solene, sem compreender que a solenidade ritualiza a incompreensão e a transforma em oferenda. E é também porque sempre fui de brigar muito, meu modo é brigando. É porque sempre tento chegar pelo meu modo. É porque ainda não sei ceder. É porque no fundo eu quero amar o que eu amaria – e não o que é. É porque ainda sou eu mesma, e então o castigo é amar um mundo que não é ele. É também porque me ofendo à toa. É porque talvez eu precise que me digam com brutalidade, pois sou muito teimosa.
de Clarice Lispector,
in 'Felicidade Clandestina'
Se tu viesses ver-me hoje à tardinha,
A essa hora dos mágicos cansaços,
Quando a noite de manso se avizinha,
E me prendesses toda nos teus braços...
Quando me lembra: esse sabor que tinha
A tua boca... o eco dos teus passos...
O teu riso de fonte... os teus abraços...
Os teus beijos... a tua mão na minha...
Se tu viesses quando, linda e louca,
Traça as linhas dulcíssimas dum beijo
E é de seda vermelha e canta e ri
E é como um cravo ao sol a minha boca...
Quando os olhos se me cerram de desejo...
E os meus braços se estendem para ti...
de Florbela Espanca,
in "Charneca em Flor"
Pensai no casal mais belo, mais encantador, como ele se atrai e se repele, se deseja e foge um do outro com graça num belo jogo de amor. Chega o instante da volúpia, e toda a brincadeira, toda a alegria graciosa e doce de súbito desapareceram. Porquê? Porque a volúpia é bestial, e a bestialidade não ri. As forças da natureza agem por toda a parte seriamente. A volúpia dos sentidos é o oposto do entusiasmo que nos abre o mundo ideal. O entusiasmo e a volúpia são graves e não comportam a brincadeira.
de Arthur Schopenhauer,
in 'Metafísica do Amor'
As lágrimas das raparigas refrescam-me. Levantam-me o moral. Às vezes lambo-as dos cantos dos olhos. São mini-margaridas, sem álcool, inteiramente naturais. Dizer «Não chores» funciona sempre, porque só mencionar o verbo «chorar» emociona-as e liberta-as, dando-lhe a carta branca para chorar ainda mais. Só intervenho com piadas e palavras de esperança e de amor quando elas vão longe demais e começam, por exemplo, a pingar do nariz.
As raparigas, depois de chorar, ficam com vontade de fazer amor. É como se tivessem apanhado uma carga de chuva. Ficam todas molhadas. Nós somos a toalha que está mais à mão. O turco maluco com que se embrulham e enxutam. É horrível, não é? Mas só um santo não se aproveitaria.
E as raparigas que choram depois de se virem? Estarão assim tão arrependidas? Comovidas? Simplesmente agradecidas? Gostaria de pensar que sim. As três coisas, pelo menos. Elas próprias não sabem. Riem-se logo de seguida. As piores são as que se riem logo ao princípio. Mas as piores também são muito queridas.
de Miguel Esteves Cardoso,
in 'O Amor é Fodido'
A alma só acolhe o que lhe pertence; de certo modo, ela já sabe de antemão tudo aquilo por que vai passar. Os amantes não contam nada de novo uns aos outros, e para eles também não existe reconhecimento. De facto, o amante não reconhece no ser que ama nada a não ser que é transportado por ele, de modo indescritível, para um estado de dinamismo interior. E reconhecer uma pessoa que não ama significa para ele trazer o outro ao amor como uma parede cega sobre a qual cai a luz do Sol. E reconhecer uma coisa inerte não significa identificar os seus atributos uns a seguir aos outros, mas sim que um véu cai ou uma fronteira se abre, e nenhum deles pertence ao mundo da percepção. Também o inanimado, desconhecido como é, mas cheio de confiança, entra no espaço fraterno dos amantes. A natureza e o singular espírito dos amantes olham-se nos olhos, e são as duas direcções de um mesmo agir, um rio que corre em dois sentidos, um fogo que arde em dois extremos.
E então é impossível reconhecer uma pessoa ou uma coisa sem relação connosco próprios, pois o acto de tomar conhecimento toma das coisas qualquer coisa; mantêm a forma, mas parecem desfazer-se em cinzas por dentro, algo delas se evapora, e o que resta é apenas a sua múmia. É por isso também que não existe verdade para os amantes; seria um beco sem saída, um fim, a morte do pensamento que, enquanto estiver vivo, se assemelha à fímbria arfante de uma chama, onde se abraçam a luz e a escuridão. Como pode uma coisa iluminar onde tudo é luz? Para quê a esmola do que é seguro e inequívoco onde tudo é plenitude? E como podemos ainda desejar alguma coisa só para nós, ainda que seja aquilo que amamos, depois da experiência que nos diz que os amantes não se pertencem, mas têm de se dar em oferenda a tudo o que vem ao seu encontro e se oferece aos seus olhares entrelaçados?
de Robert Musil,
in 'O Homem sem Qualidades'
Viver é uma peripécia. Um dever, um afazer, um prazer, um susto, uma cambalhota. Entre o ânimo e o desânimo, um entusiasmo ora
doce, ora dinâmico e agressivo.
Viver não é cumprir nenhum destino, não é ser empurrado ou rasteirado pela sorte. Ou pelo azar. Ou por Deus, que também tem a
sua vida. Viver é ter fome. Fome de tudo. De aventura e de amor, de sucesso e de comemoração de cada um dos dias que se
podem partilhar com os outros.
Viver é não estar quieto, nem conformado, nem ficar ansiosamente à espera.
Viver é romper, rasgar, repetir com criatividade. A vida não é fácil, nem justa, e não dá para a comparar a nossa com a de ninguém.
De um dia para o outro ela muda, muda-nos, faz-nos ver e sentir o que não víamos nem sentíamos antes e, possivelmente, o que não
veremos nem sentiremos mais tarde.
Viver é observar, fixar, transformar. Experimentar mudanças. E ensinar, acompanhar, aprendendo sempre. A vida é uma sala de
aula onde todos somos professores, onde todos somos alunos. Viver é sempre uma ocasião especial. Uma dádiva de nós para nós
mesmos. Os milagres que nos acontecem têm sempre uma impressão digital. A vida é um espaço e um tempo maravilhosos mas
não se contenta com a contemplação. Ela exige reflexão. E exige soluções.
A vida é exigente porque é generosa. É dura porque é terna. É amarga porque é doce. É ela que nos coloca as perguntas, cabendo-
nos a nós encontrar as respostas. Mas nada disso é um jogo. A vida é a mais séria das coisas divertidas.
Joaquim Pessoa,
in 'Ano Comum'
Querida amiga,
Já terás partido para longe quando estiveres a ler estas linhas... permite-me que partilhe contigo o que sinto a respeito desta tua grande mudança...
Nunca é bom colocarmos qualquer tipo de âncora na saudade ou nos sonhos. A nossa casa, o nosso país, é o lugar onde nós estamos. É aí que temos de ser quem somos. É aí que temos de descobrir a felicidade de cada dia. Tudo o resto é estrangeiro.
Cada homem pertence tanto ao sítio de onde vem como àquele para onde vai. A ideia de que as nossas raízes nos prendem e condenam segue na linha errada da outra, também comum, de que os sonhos nos fazem perder... não, a vida é esta forma de ir sendo sempre mais, o que se foi, tanto quanto o que ainda não se é... uma viagem, não uma estação.
Sei que partes com dor porque temes perder quem aqui fica e não ter ninguém por lá, onde chegarás... sabes, em pouco tempo, terás de aceitar que muitos dos que agora lamentam muito a tua partida, se preocuparão tão pouco em saber como estás...
Já fizeste muita gente feliz aqui... Mas, estou certo que esta mudança vai ser algo magnífico para muita gente: no sítio para onde vais há gente que precisa de ti para ser feliz, ainda que para já, nem sequer saibam que é a ti que esperam... és uma semeadora de alegria, sê-lo-ás por onde andares... por mais longe e estranho que sejam o lugar e o povo onde estiveres.
Começar de novo é difícil, mas permite que comecemos sempre mais fortes, na medida em que partimos com mais erros acumulados e mais vontade de aproveitar bem a vida, num tempo que se encurta a cada hora...
Na alegria e na tristeza, obriga-te a nunca duvidar que o amor existe. Pode não estar onde julgas, nem com quem gostarias... mas existe. Dentro de ti, nunca se esgotará, até porque sempre que o entregamos, volta a nascer maior e mais belo... o que nos torna, talvez mais frágeis neste mundo, mas muito mais fortes... no que interessa.
Não te percas em grandes questionamentos à justiça do mundo... o mundo é injusto. Cabe a cada um de nós procurar, através das nossas ações, deixá-lo menos injusto.
Procura ser uma grande mulher, mas não no que se vê. O sorriso daquela pessoa simples que nunca mais se cruzará contigo na vida, talvez seja mais importante que uma salva de palmas de gente conhecida.
Sonha, muito, mas levanta-te cedo para lutares pelo que sonhas. A diferença no mundo não é entre os que são capazes de sonhar e os que não o fazem... é entre os que abrem os olhos e lutam e aqueles que, de olhos bem fechados, esperam que tudo lhes chegue sem esforço.
Segundo acredito, chegarás longe, muito muito alto... onde poucos chegam, por isso prepara-te e não estranhes quando enfrentares desafios e sofrimentos a que nunca viste ninguém ser exposto... o teu caminho é o teu caminho. Não te compares com ninguém. És única.
Quando fraquejares e caíres... levanta-te! Mesmo quando não souberes para quê ou como. Levanta-te... pois que a maior fortaleza que tens deverá ser usada para venceres sobre os egoísmos e medos... Quem não perdoa os pequenos defeitos, nunca chega a desfrutar das grandes virtudes...
Não procures quem te ame. Procura a quem amar.
Acredito, no mais fundo de mim, que és um pedaço de Deus no mundo.
Não te demores mais comigo, vai, que há por aí pessoas que precisam de ti para serem felizes... vai!
Gosto muito de ti.
Rezo por ti.
de José Luís Nunes Martins,
in 'Amor, Silêncios e Tempestades'
Sou a tua casa, a tua rua, a tua segurança, o teu destino.
Sou a maçã que comes e a roupa que vestes.
Sou o degrau por onde sobes, o copo por onde bebes, o teu riso e o teu choro, o teu frio e a tua lareira.
O pedinte que ajudas, o asilo que te quer acolher.
Sou o teu pensamento, a tua recordação, a tua vontade.E também o artesão que para ti trabalha, o medo que te perturba e o cão que te guia quando entras pela noite.
Sou o sítio onde descansas, a árvore que te dá sombra, o vento que contigo se comove.
Sou o teu corpo, o teu espírito, o teu brilho, a tua dúvida.
Sou a tua mãe, o teu amante, o marfim dos teus dentes. E sou, na luz do outono, o teu olhar.
Sou a tua parteira e a tua lápide. Os teus vinte anos. O coração sepultado em ti.
Sou as tuas asas, a tua liberdade, e tudo o que se move no teu interior.
Sou a tua ressaca, o teu transtorno, o relógio que mede o tempo que te resta.
Sou a tua memória, a memória da tua memória, o teu orgulho, a fecundação das tuas entranhas, a absolvição dos teus pecados.
O teu amuleto e a tua humildade.
Sou a tua cobardia, a tua coragem, a força com que amas.
Sou os teus óculos e a tua leitura. A tua música preferida, a tua cor preferida, o teu poema preferido.
Sou o que significas para mim, a ternura que desagua nos teus dedos, o tamanho das tuas pupilas antes e depois de fazer amor.
Sou o que sou em ti e o que não podes ser em mim.
Sou uma só coisa.
E duas coisas diferentes.
de Joaquim Pessoa,
in 'Ano Comum'
A um passo do amor estarás a um passo do futuro e a duzentos mil anos do passado.
O teu nome é o nome de todas as coisas, quando todas as coisas respiram no teu nome.
Entre o sofrimento e a felicidade, muito de ti se espalha pela vida, muita vida te aguarda, muita vida te procura.
Um duplo coração bate dentro do peito e fora de ti.
Tens a sabedoria das crianças e a sabedoria dos velhos.
Sabes ferir e beijar e sentes o vento do orgulho.
Pequeninos gestos, grandes pensamentos, constroem um dia excepcional, um amor excepcional, uma violência excepcional.
Todas as noites são uma só noite, tanto desespero pode voltar a ser esperança.
As tuas mãos são uma pátria.
Os teus dedos são, umas vezes, o mais difícil dos rebanhos. E outras, os cães que o guardam, quando a verdade é triste e o amor tem a fome e a sede das estrelas.
de Joaquim Pessoa,
in 'Ano Comum'