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Amor - pois que é palavra essencial

comece esta canção e toda a envolva.

Amor guie o meu verso, e enquanto o guia,

reúna alma e desejo, membro e vulva.

Quem ousará dizer que ele é só alma?

Quem não sente no corpo a alma expandir-se

até desabrochar em puro grito

de orgasmo, num instante de infinito?

O corpo noutro corpo entrelaçado,

fundido, dissolvido, volta à origem

dos seres, que Platão viu completados:

é um, perfeito em dois; são dois em um.

Integração na cama ou já no cosmo?

Onde termina o quarto e chega aos astros?

Que força em nossos flancos nos transporta

a essa extrema região, etérea, eterna?

Ao delicioso toque do clitóris,

já tudo se transforma, num relâmpago.

Em pequenino ponto desse corpo,

a fonte, o fogo, o mel se concentraram.

Vai a penetração rompendo nuvens

e devassando sóis tão fulgurantes

que nunca a vista humana os suportara,

mas, varado de luz, o coito segue.

E prossegue e se espraia de tal sorte

que, além de nós, além da prórpia vida,

como ativa abstração que se faz carne,

a idéia de gozar está gozando.

E num sofrer de gozo entre palavras,

menos que isto, sons, arquejos, ais,

um só espasmo em nós atinge o climax:

é quando o amor morre de amor, divino.

Quantas vezes morremos um no outro, nu úmido subterrâneo da vagina,

nessa morte mais suave do que o sono:

a pausa dos sentidos, satisfeita.

Então a paz se instaura. A paz dos deuses,

estendidos na cama, qual estátuas

vestidas de suor, agradecendo

o que a um deus acrescenta o amor terrestre.

 

de Carlos Drummond de Andrade

 

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publicado às 13:08

Falando de Amor, de Artur da Távola

por LJCP, em 21.08.14

A Afinidade é um dos poucos sentimentos

que resistem ao tempo e ao depois.

A afinidade não é o mais brilhante, mas o mais

sutil, delicado e penetrante dos sentimentos.

É o mais independente também.

 

Não importa o tempo, a ausência, os adiamentos,

as distâncias, as impossibilidades.

Quando há afinidade, qualquer reencontro retoma a

relação, o diálogo, a conversa, o afeto no exato

ponto em que foi.

Ter afinidade é muito raro.

 

Mas, quando existe não precisa de códigos verbais

para se manifestar.

Existia antes do conhecimento, irradia durante e

permanece depois que as pessoas deixaram de

estar juntas.

Afinidade é ficar longe pensando parecido a

respeito dos mesmos fatos

que impressionam, comovem ou mobilizam.

É ficar conversando sem trocar palavras.

É receber o que vem do outro com aceitação

anterior ao entendimento.

 

Afinidade é sentir com,

Não é sentir contra,

Nem sentir para,

Nem sentir por,

Nem sentir pelo.

 

Quanta gente ama loucamente,

mas sente contra o ser amado.

Quantos amam e sentem para o ser amado, não

para eles próprios.

Sentir com é não ter necessidade de explicar o que

está sentindo.

É olhar e perceber.

 

É mais calar do que falar,ou, quando é falar, jamais

explicar: apenas afirmar...

Afinidade é ter perdas semelhantes e iguais

esperanças.

 

É conversar no silêncio, tanto nas possibilidades

exercidas quanto das impossibilidades.

Afinidade é retomar a relação no ponto em que

parou sem lamentar o tempo de separação.

Porque tempo e separação nunca existiram.

Foram apenas oportunidades dadas (tiradas) pela

vida.

Para que a maturação comum pudesse se dar.

E para que cada pessoa pudesse e possa ser,cada

vez mais a expressão do outro

sob a forma ampliada do eu individual aprimorado.


de Artur da Távola

 

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publicado às 13:37

O Amor, de Fernando Pessoa

por LJCP, em 20.08.14

O amor, quando se revela,

Não se sabe revelar.

Sabe bem olhar p´ra ela,

Mas não lhe sabe falar.

 

Quem quer dizer o que sente

Não sabe o que há de *dizer.

Fala: parece que mente

Cala: parece esquecer

 

Ah, mas se ela adivinhasse,

Se pudesse ouvir o olhar,

E se um olhar lhe bastasse

Pr´a saber que a estão a amar!

 

Mas quem sente muito, cala;

Quem quer dizer quanto sente

Fica sem alma nem fala,

Fica só, inteiramente!

 

Mas se isto puder contar-lhe

O que não lhe ouso contar,

Já não terei que falar-lhe

Porque lhe estou a falar.

de Fernando Pessoa

 

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publicado às 13:20

Soneto, de Augusto dos Anjos

por LJCP, em 19.08.14


Ouvi, senhora, o cântico sentido

Do coração que geme e s´estertora

N´ânsia letal que mata e que o devora

E que tornou-o assim, triste e descrido.

 

Ouvi, senhora, amei; de amor ferido,

As minhas crenças que alentei outrora

Rolam dispersas, pálidas agora,

Desfeitas todas num guaiar dorido.

 

E como a luz do sol vai-se apagando!

E eu triste, triste pela vida afora,

Eterno pegureiro caminhando,

 

Revolvo as cinzas de passadas eras,

Sombrio e mudo e glacial, senhora,

Como um coveiro a sepultar quimeras!

 

de Augusto dos Anjos

 

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publicado às 13:37

Soneto Puro, de Ledo Ivo

por LJCP, em 18.08.14

Fique o amor onde está; seu movimento

nas equações marítimas se inspire

para que, feito o mar, não se retire

de verdes áreas de seu vão lamento.

 

Seja o amor como a vaga ao vago intento

de ser colhida em mãos; nela se mire

e, fiel ao seu fulcro, não admire

as enganosas rotações do vento.

 

Como o centro de tudo, não se afaste

da razão de si mesmo, e se contente

em luzir para o lume que o ensolara.

 

Seja o amor como o tempo – não se gaste

e, se gasto, renasça, noite clara

que acolhe a treva, e é clara novamente.

de Ledo Ivo

 

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publicado às 13:34

Amor é bicho instruído

Olha: o amor pulou o muro

o amor subiu na árvore

em tempo de se estrepar.

Pronto, o amor se estrepou.

Daqui estou vendo o sangue

que escorre do corpo andrógino.

Essa ferida, meu bem

às vezes não sara nunca

às vezes sara amanhã.

 

de Carlos Drummond de Andrade

 

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publicado às 13:30

Minha menina, de Eduardo Baqueiro

por LJCP, em 16.08.14

Sempre que olho para o céu

Sinto uma vontade de ter asas

Voar para te encontrar

Uma vontade de possuir você

 

Você que me ama

Sabe o que sinto

Quando olho para o céu

Às vezes chega até doer

 

As estrelas me lembram você

Tão linda, tão iluminada

Mas tão distante de mim

Perdoe-me amor

 

Não me canso de pensar

Que um dia poderei tocar você

Dizer pessoalmente

O bem que me fazes

O quanto és importante

 

Às vezes penso que você

é apenas um sonho...

Que um dia eu irei acordar

E viver somente da saudade

que sentirei de você

 

Hoje está frio em meu quarto

Sinto mais ainda tua falta

Vontade de tirar você

dos meus sonhos

e trazê-la para minha realidade

 

Ouço tua voz dizendo

que me ama

e que és minha menina

Me entristeço, confesso...

Não sei se devia...

Mas o que fazer se te amo demais?

 

O mar traz tua lembrança

Sei que tua essência vem dele

Assim como a minha também

Por isso sinto tua falta

 

Teu amor me alimenta

Teus dengos me animam

Teus carinhos me excitam

Tua voz me embriaga

 

Estou só em meu quarto

Mas estou com você

em meu coração

Desejando que meu amor

tenha uma boa noite

 

Que seus sonhos sejam

lindos como são os meus

Que eu possa estar com você

caminhando de mão dadas pela praia...

 

Não sei o que será do futuro

Nem quero pensar

Somente desejo curtir você

Enquanto for minha

somente minha...

de Eduardo Baqueiro

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publicado às 13:23

Foi para ti, de Mia Couto

por LJCP, em 15.08.14

Foi para ti

que desfolhei a chuva

para ti soltei o perfume da terra

toquei no nada

e para ti foi tudo

 

Para ti criei todas as palavras

e todas me faltaram

no minuto em que falhei

o sabor do sempre

 

Para ti dei voz

às minhas mãos

abri os gomos do tempo

assaltei o mundo

e pensei que tudo estava em nós

nesse doce engano

de tudo sermos donos

sem nada termos

simplesmente porque era de noite

e não dormíamos

eu descia em teu peito

para me procurar

e antes que a escuridão

nos cingisse a cintura

ficávamos nos olhos

vivendo de um só olhar

amando de uma só vida.

 

de Mia Couto

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publicado às 13:14

Simplesmente o amor, de Davi Matos

por LJCP, em 14.08.14

O amor não tem pressa,

Não tem jeito,

Não tem hora,

Não tem motivo.

O amor simplesmente acontece

Simplesmente nasce,

Simplesmente flui,

Simplesmente, simplesmente

O amor.

 

de Davi Matos

 

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publicado às 13:04

O que fazer entre um orgasmo e outro,

quando se abre um intervalo

sem teu corpo?

 

Onde estou, quando não estou

no teu gozo incluído?

Sou todo exílio?

 

Que imperfeita forma de ser é essa

quando de ti sou apartado?

 

Que neutra forma toco

quando não toco teus seios, coxas

e não recolho o sopro da vida de tua boca?

 

O que fazer entre um poema e outro

olhando a cama, a folha fria?

 

de Affonso Romano de Sant´Ana 

 

 

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publicado às 13:00

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